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terça-feira, 3 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27789: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - XI (e última) Parte: Conclusão

Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (Catió 1967/69) > Cerimónia militar em fevereiro de 1968, por ocasião da imposição à CART 1689 da Flâmula de Honra (ouro) do CTIG (Comando Terriorial Independente da Guiné), atribuída em julho de 1967, com a presença das entidades civis e população.

Foto do álbum do nosso saudoso Victor Condeço (1943-2010) > "Militares, civis da administração, correios e comerciantes. Da esquerda para a direita, [?], de costas, o Cap Médico Morais (1), o comandante, ten cor Abílio Santiago Cardoso (2), quatro funcionários dos Correios e Administração (3), os comerciantes srs. José Saad e filha (4), Mota (6), Dantas e filha (5), Barros (7), depois o electricista civil Jerónimo (8), e o alf grad capelão Horácio  Fernandes (9)".

Ao canto superior direito pode ler-se a seguinte inscrição: "A nossa intervenção em África é resposta a um desafio que nos lançaram e a afrontas que não podemos esquecer' ".  

Foto (e legenda): © Victor Condeço (2007).  Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

1. Chegámos ao fim desta série, baseada na reprodução de  excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do nosso grão -tabanqueiro Horácio Fernandes, nascido em Ribamar, Lourinhã, em 1935, que foi nosso camarada como capelão militar no CTIG (BART 1913, Catió,  1967/69), e que faleceu no passado mês de novembro de 2025,  aos 90 anos.



Horácio Fernandes
(1935-2025)
No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta a história de vida de Francisco Caboz, seu "alter ego". Trata-se, pois, de uma autobiografia, que em 30 páginas, a duas colunas, cobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta até 1972, o ano em que, prestes a fazer 37 anos, regressa ao estado laical e constituiu família, passando a viver no Porto.

Nos dez  postes anteriores já publicados (*), ele fala-nos, sucintamente, de:

(i) a sua terra natal, "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram:  
o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e o avô materno,  o sacristão da freguesia, o Ti João das Velas de Santa Bárbara;

(ii) como foi criando raízes a ideia de ser padre: o avô materno, sacristão, e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram nessa decisão;

(iii) a entrada no Colégio Angélico (leia-se, Seráfico, na altura Montariol, em Braga, a mais de 300 km de distância da sua terra natal), e os "quatro cenários" onde se vai desenrolar a sua vida de "angélico" (ou seja, até ao 5º ano, correspondente hoje ao 9º ano de escolaridade): a camarata, o refeitório, a sala de aulas, o salão de estudo, e onde vigorava o panoptismo;

(iv) os mecanismos de vigilância dos internos e os rituais de punição por parte dos prefeitos;

(v) o 6.º ano, quando passou a ser noviço (Convento do Varatojo, Torres Vedras, já ao pé de casa);

(vi) seguiu-se o Coristado de Filosofia (em Leiria, no seminário de São Francisco / convento da Portela);

(vii) e depois de Coristado de Teologia (no Seminário da Luz, Carnide, Lisboa), até à ordenação sacerdotal (em agosto de 1959).

(viii) no início do 2º semestere de 1967, foi chamada para fazer, na Academia Militar, o 1º curso de capelães militares;

(ix)  foi mobilizado para a Guiné, em rendição individual, como capelão militar, sendo colocado no BART 1913 (Catió, 1967/69);

(x) a sua vocação sacerdotal começou a ser  abalada com a sua passagem pelo sul da Guiné.

Terminada a comissão, em finais de 1967, andou ainda na marinha mercante (transporte de tropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972.

Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006, aos 70 anos, doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha.

Reencontrámo-nos, por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro, Lourinhã, ao fim de 57 anos de vidas completamente separadas. 


2. Achámos que era uma história de vida que merecia ser conhecida dos nossos leitores. Um verdadeiro testemunho de uma época que ainda coincide, em parte, com a nossa.

Considerámos tratar-se de um trabalho académico, relevante não só para a história da capelania castrense como também para o conhecimento do ensino confessional ministrado em seminários diocesanos e regulares, onde se formava o clero católico ao tempo da Ditadura Militar e Estado Novo (1926-1974).

Imagem acima, do lado direito: capa do livro do Horácio Fernandes, publicado 14 anos depois da sua dissertação de mestrado (1995): ""Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.)


História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - XI (e última) Parte: Conclusão 

por Horácio Fernandes

6. - A desconstrução do habitus. O Trânsfuga.

De novo, e no fim deste desenvolvimento autobiográfico, se coloca a questão de saber qual a relevância científica da descrição fenomonológica de uma vida.

Defendemos (vd. cap 3° da dissertação de mestrado) que a individualidade, não só  não  esgota as explicações estruturais - Francisco é produto de uma construção social em contexto salazarista - como estas podem ser enriquecidas pela análise daquela.

Francisco não se deixou dilacerar, como porventura conviria a uma autobiografia mais épica (mas menos real), prioritariamente por dilemas políticos, ou por dilemas teológicos. 

O trânsfuga, em que o tornaram e em que se tornou, era constituído por uma contradição que não lhe parecia insuperável, mas que as normas institucionais tornaram insuperáveis, entre a busca da sua identidade pessoal e a sua identidade profissional. Contradição essa, constituída prioritariamente por um cadinho de sensibilidades e afectos que ele, por excesso, não conseguia conter, dentro do «ego» que pensou ser o seu, durante 26 anos.

Nos últimos tempos de Capelão Militar, Francisco andava em grande perturbação. Por um lado o habitus (**) predispunha-o e quase o obrigava a regressar à instituição. Por outro, achava que após a experência de uma vida diferente, a força das suas representações esmorecera e já não iria assumir a sua missão, apaixonadamente. 

Abandonar, para ele, também era um terrível obstáculo, pois uma terrível frase não só o matraqueava, como se entranhara nele: tu es sacerdos in aeternum (tu és sacerdote para sempre).

- 133 - 


O habitus,  como dupla personalidade que é, resiste sempre a qualquer reconstrução que contra si se faça. A reconstrução de Francisco não foi fácil.

Lançado em pleno mundo que aprendera a anatematizar, Francisco vê-se, com raras excepções, mal amado como padre e apenas tolerado, como companheiro de viagem.

As representações que tinham sustentado e alimentado o seu longo percurso de domesticação começaram a desvanecer-se: 

  • foi o sonho de ser missionário que ficou desfeito, depois de observar in loco a irracionalidade da Guerra Colonial, a exploração do homem preto pelo branco e a aversão dos professores mais evoluidos a tudo o que fosse vestígio do colonialismo;
  • foi a excelência simbólica da missão de administrador do sagrado, que afinal não era reconhecida pela maior parte dos homens com quem vivera;
  • era a sacralidade da própria instituição divina, a Igreja, tão permeável às «cunhas» e compadrios, e indiferente às injustiças praticadas, na Guerra que apadrinhava.

Estes dilemas não o dilaceravam, nem foram ocasião próxima de tomar uma atitude épica de rompimento. Mentiria, se o empolasse agora. Os dilemas políticos não foram a causa próxima do seu rompimento com a instiuição. Contudo, ajudaram-no a descrer.

Francisco precisava de estar apaixonado por alguma coisa, ou por alguém. Fragilizadas as suas representações, abriu-se um vazio que precisava de ser preenchido A instituição, mergulhada como toda a Igreja, no aggiornamento (vd. cap 2º da dissertação) dos anos 60, debatia-se numa crise de identidade e as deserções multiplicavam-se.

- 134 -

Francisco era um apaixonado e estava a viver os seus 15 anos. As suas irmãs e demais pessoas, que o conheceram na altura da Missa Nova, descreviam-no como um místico, que quando se ordenou vivia o sagrado intensamente em todos os seus gestos. Quando tomou a peito que os alunos fizessem boa figura no liceu, levou até ao sacrifício esse objectivo. Quando se propôs ajudar a sua família, custeando os estudos de suas irmãs, não se poupou a esforços e fê-lo.

Agora, estava numa encruzilhada. Na sua penúltima viagem no «Niassa», carregado de tropas para a Guiné, teve ocasião de conversar com um angélico, não trânsfuga, que lhe contou o seguinte:

Em 1969, quando acabou a Comissão Militar, Francisco confídenciou-lhe que estava desamorado daquilo em que se empenhara e acreditara e se estava a inclinar para outra paixão. Confidenciara-lhe que era um poço de afecto e que se apaixonava com toda a facilidade, faceta que até aí nunca experimentara. Agora, queria viver a vida que não o deixaram viver durante 13 anos e queria vivê-la intensamente. 

Confessou-lhe, então, que mais cedo ou mais tarde preencheria esse vazio. Ainda não individualizara esse afecto, mas quando se apaixonasse, não hesitava em pedir a redução ao estado laical. Sentia-se bem entre as raparigas, embora as suas reacções fossem como os de um jovem imaturo de 15 anos. Por um lado, o 'habitus' a inibi-lo e a lembrar-lhe que o seu compromisso com o sagrado era eterno. Por outro, um instinto quase irresistível para amar.

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Tal como na construção da sua vocação, entra então em cena uma terceira personagem: o seu Prior. É com a sua intervenção que é possível estabelecer negociações entre o 'habitus', a dupla personalidade incutida durante 13 anos pelo Seminário e o agora Francisco de 36 anos, há já quase quatro anos, praticamente fora da instituição. E, novamente, a questão da influência das pessoas singulares na vida das pessoas, se coloca com toda a pertinência (cap. 2º).

Na boa lógica do filho pródigo, as hierarquias tentam reconvertê-lo à causa, e prometem-lhe mesmo, não uma grande festa, com a matança de um carneiro, mas uma parcela do poder, cujo significado ainda é maior. Como persiste em recusar regressar, arrependido, à casa paterna, consideram-no Trânsfuga.

É a lógica do ensino confessional, no tempo do regime salazarista, cuja estrutura organicista permanecia intacta. Se fosse fiel à domesticação, seria bem-aventurado; se não se subordinasse, seria amaldiçoado. A ordem discursiva, essa, serpenteia ao sabor das circunstâncias políticas: ora pede perdão, ora se autolegitima para esconjurar o demónio da racionalidade.

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CONCLUSÃO

Um dos propósitos centrais deste trabalho foi o de explorar a hipótese de saber se é possível ou não penetrar sociologicamente as experiências de vida de alguém, a partir dessas próprias experiências e não apenas, como a sociologia tradicional procede, a partir das estruturas macro-sociais, enquanto instância explicativa.

No final deste percurso de investigação queremos haver construído uma resposta à pergunta que na "Introdução" (da dissertação) formulámos:

«Como penetrar sociologicamente as experiências de Francisco Caboz que cresceu e foi enformado pelo sistema do ensino salazarista, pelo subsistema do ensino confessional, foi domesticado e interiorizou o 'habitus sacerdotal', foi ungido na sua 'missão' simbólica, e se transformou em 'trânsfuga' e regressou ao quotidiano profano?».

Resposta porventura não definitiva, primeiro porque as próprias vidas também não o são, depois porque não há olhar, científico ou não, que esgote totalmente o seu objecto.

Admitimos que outros olhares, outra metodologia teria feito falar a história de Francisco Caboz de outro modo. Todavia, acreditamos ser esta, de todas elas, uma forma de o fazer que menos exaure a própria história de Francisco de possíveis significações e resultados.

Num tempo de mudança de paradigma de cientificidade, em que as distinções entre as Ciências da Natureza e as Ciências Sociais e Humanas são postas em causa (cfr. Sousa Santos, "Para uma Ciência Pós-Moderna", 1979), num tempo em que o modelo positivista da cientificidade, mais do que criticado, tende a ser suplantado por modelos em que a própria cientificidade se intromete substancialmente na própria objectividade científica; finalmente, num tempo em que a literatura e a arte em geral se vê desafiada num potencial de nova cientificidade, ou cientificidade diferente, optamos por um método que possuindo a marca da História e dos seus cuidados metodológicos, possui uma espessura ficcional clara. (Nisbet, 1976: 16). Isto no que concerne à questão da pertinência sociológica da História de Vida de Francisco.

Quanto à segunda interrogação: «quais os processos de domesticação/interiorização do habitus no ensino confessional e sua articulação com os vectores educativos do sistema salazarista?», esses processos, no Seminário tradicional, pretendiam plasmar uma representação de homem em que se miscegenavam as visões febris dos anacoretas do deserto africano, a dualidade maniqueísta medieval e os arroubos simbólicos reinventados pelos hagiógrafos (cf. Rodrigues, 1933).

Centravam-se no aniquilamento do «homem velho», reconstrução do «homem novo» e inteira subjugação do self ao colectivo institucional. Consistiam na ritualização de todos os momentos e a subordinação destes ao Regulamento, num sistema panóptico, sem permitir que a racionalidade profana questionasse a sacralidade dos processos. 

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Obtinha-se, assim,uma dupla personalidade que obedecia cegamente ao rito inculcado e interiorizado. Tudo em nome dos valores simbólicos que constrangiam as subjectividades com dupla violência (Bourdieu, 1978).

Relativamente à articulação com o ensino salazarista, se todo o ensino reflecte a matriz social do regime (Bourdieu, 1978), o ensino confessional exercia funções de complementariedade e articulação, em relação ao sistema de ensino público salazarista:

  • Complementariedade, na medida em que, subsidiado em grande parte pela clientela eclesiástica e «benfeitores», supria as lacunas do ensino público salazarista para os meios rurais, seleccionava os melhores, os vocacionados, na mesma lógica do sistema, incutindo-lhes o habitus para reproduzir a permanência irracional do mesmo constructum simbólico;
  • Articulação, porque embora tutelado pelas instâncias internacionais da Igreja mas não certificado, através de diploma, reproduzia os administradores do sagrado para difundir em todo o Império a Trilogia simbólica que constituía a essencialidade do regime e a subordinação do Outro.

Mais do que orientado pela lógica das conjunturas político-económicas internacionais, a Ditadura autolegitimou-se simbolicamente e enformou a Nação pela matriz sistémica do ensino confessional de que o Ditador fora quer reprodutor, quer paladino. 

As hierarquias eclesiásticas foram cúmplices desta ditadura por terem ofertado o ditador, alimentado-a ideologicamente e à sombra dela se instalarem, à excepção de algumas vozes individuais discordantes, sobretudo da política social (D. António, Bispo do Porto, 1958). As hierarquias perderam a voz, depositando-a nas mãos do regime, em troca dos favores temporais.

Nos anos 60, factores endógenos e exógenos põem em causa o funcionamento pedagógico dos Seminários. O número de vocacionados regride com a certificação liceal imposta, a representação social do padre diminui e as mudanças inerentes ao aggiornamento da Igreja abalam as estruturas panópticas do Seminário tradicional. A crise estende-se à própria classe eclesiástica que começa a pôr em causa não só os processos de inculcação do 'habitus', como a legitimidade do próprio 'habitus' sacerdotal. As deserções multiplicam-se e os grandes Seminários esvaziam-se, procurando novos paradigmas pedagógicos.

Finalmente a História de Vida de Francisco Caboz revela que o micro pode dialectizar com o macro, mas não se esgota nele. Enformado pelas práticas rituais, e conformado por elas, até à «missão», vê-se depois confrontado com o seu self, quando, ultrapassadas as barreiras panópticas «deixa de ser profissional a tempo inteiro do rito» (Saud, 1975). Paulatinamente, vai sendo destruturado o 'habitus' interiorizado, até à libertação dos «instrumentos de censura, e auto-controlo que produziam, sem exame crítico, explícito, mensagens conforme a ortodoxia» (Ibidem).

Em termos de ganhos sociológicos, adiantamos que ao partir da não hipóstase do social e do político, ao substancializá-los em sistemas de agência humana, pretendemos quer completar os «buracos negros» que a sociologia de teor estruturalista sempre deixa em aberto, enquanto formação discursiva quer sublinhar a não reificação das estruturas sociais.

- 138 - 

Com a história de Francisco Caboz pretendemos haver mostrado que o salazarismo não criou apenas salazaristas, que as determinações estruturais deixam margem de acção suficiente para a agência humana se instalar e que o próprio salazarismo, enquanto Weltanchaung [visão do mundo, em alemão], não pode ser reduzido a um mimo do fascismo italiano ou nazismo alemão. Aí, uma outra, muito peculiar, história de vida, teria de se contar, a do próprio Salazar, a do Prefeito do Colégio da Via Sacra. Mas isto seria uma outra Dissertação (cf. 1º capítulo).

Efectivamente, o próprio salazarismo, acreditamos nisso, poderia ver alguns dos seus «buracos negros» preenchidos - histórica e sociologicamente - se com as análises macro se cruzassem as análises micro. O nosso contributo, para a compreensão sociológica do salazarismo, parece concentrar-se aí, por uma dupla via: a via do salazarismo, esclarecido pelo seminarismo de Salazar e a via de uma criança que se fez homem e trânsfuga num Seminário e ambiente de tipo salazarista.

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Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 133-139 (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).

(Revisão/ fixação de texto, negritos, links, parênteses retos, título: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 23 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27763: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte X: A desconstrução do padre, que ainda andou nos navios da marinha mercante (T/T Niassa e petroleiros)

(**) Habitus: conceito central da teoria sociológica do francês Pierre Bourdieu (1930-2002). Em termos sucintos, efere-se a um sistema de disposições duradouras ( esquemas de perceção, pensamento, ação e avaliação ) que são incorporadas pelos indivíduos através da socialização (família, escola, grupo social, etc.) e que orientam as suas práticas e escolhas de forma inconsciente e adaptativa. Ou por outra palavras,m é a interiorização da estrutura social que molda a forma como agimos, pensamos e sentimos, reproduzindo (ou transformando) as desigualdades e hierarquias do campo social onde nos inserimos.

Pierre Bourdieu esteve na Argélia durante a guerra colonail  como parte do serviço militar obrigatório. Recusou ir como oficial miliciano,  prestou serviço como simples soldado na área administrativa. Depois da desmobilização, tornou-se professor e investigador na Universidade de Argel (1958–1960). Foi durante este período que realizou trabalho de campo etnológico entre os cabilas, um subgrupo do  povo bérbere,  experiência que fundamentou a sua obra "Sociologie de l’Algérie" (1958) e que marcou  a sua transição da filosofia para a sociologia e antropologia.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27763: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte X: A desconstrução do padre, que ainda andou nos navios da marinha mercante (T/T Niassa e petroleiros)


Guiné > Legenda: "Recordação do Niassa. Lisboa - Guiné - Lisboa.... Missão Cumprida!... Lisboa, de 1 de maio de 1968 / Bissau, 3 de abril de 1970)... Transportando a CCÇ 2381, além de outras unidades. Cortesia de José Teixeira (1.º cabo aux enf, CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70), nosso colaborador permanente. O padre frei Horácio Fernandes também aqui foi capelão, depois de terminar a sua comissão de serviço como capelão militar, no CTIG, em finais de 1969.

Foto (e legenda): © José Teixeira (2006). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do nosso grão -tabanqueiro Horácio Fernandes, que foi nosso camarada como capelão militar no CTIG (BART 1913, Catió,  1967/69), e que faleceu, ainda recentemente, em novembro de 2025, com 90 anos completos.



Horácio Fernandes
(1935-2025)
No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta a história de vida de Francisco Caboz, seu "alter ego". Trata-se, pois, de uma autobiografia, que em 30 páginas, a duas colunas, cobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta até 1972, o ano em que, prestes a fazer 37 anos, regressa ao estado laical e constitui família, passando a viver no Porto.

Nos nove  postes anteriores já publicados (*), ele fala-nos, sucintamente, de:

(i) a sua terra natal, "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram: 
o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e o avô materno (nascido provavvelmemnte na década de  1880), o sacristão da freguesia, o Ti João das Velas de Santa Bárbara;

(ii) como foi criando raízes a ideia de ser padre: o avô materno, sacristão, e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram nessa decisão;

(iii) a entrada no Colégio Angélico (leia-se, Seráfico, na altura Montariol, em Braga, a mais de 300 km de distância da sua terra, Ribamar, Lourinhã), e os "quatro cenários" onde se vai desenrolar a sua vida de "angélico" (ou seja, até ao 5º ano, correspondente hoje ao 9º ano de escolaridade): a camarata, o refeitório, a sala de aulas, o salão de estudo, e onde vigorava o panoptismo;

(iv) os mecanismos de vigilância dos internos e os rituais de punição por parte dos prefeitos;

(v) o 6.º ano, quando passa a ser noviço (Convento do Varatojo, Torres Vedras);

(vi) segue-se o Coristado de Filosofia (em Leiria, no seminário de São Francisco / convento da Portela) e depois de Teologia (no Seminário da Luz, Carnide, Lisboa), até à ordenação sacerdotal (em agosto de 1959).

(vii) no início do 2º semestere de 1967, é chamada para fazer, na Academia Militar, o 1º curso de capelães militares;

(viii) é mobilizado para a Guiné, em rendição individual, como capelão militar, sendo colocado em Catió no BART 1913;

(ix) a sua vocação sacerdotal é abalada com a sua passagem pelo sul da Guiné.

Terminada a comissão, em finais de 1967, andou ainda na marinha mercante (transporte de tropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972, antes de completar os 37 anos.

Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006, aos 70 anos, doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha.

Reencontrámo-nos, por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro, Lourinhã, ao fim de 57 anos de vidas completamente separadas.


2. É uma história de vida que merece ser conhecida dos nossos leitores. Um verdadeiro testemunho de uma época que ainda coincide, em parte, com a nossa.

É um trabalho académico, relevante não só para a história da capelania castrense como também para o conhecimento do ensino confessional ministrado em seminários diocesanos e regulares, onde se formava o clero católico ao tempo da Ditadura Militar e Estado Novo (1926-1974).

Imagem do lado direito: capa do livro do Horácio Fernandes, publicado 14 anos depois da sua dissertação de mestrado (1995): ""Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.)


História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte X:   A desconstrução do padre, que ainda andou nos navios de transporte de tropas e nos petroleiros


por Horácio Fernandes


6.  A desconstrução do habitus. O Trânsfuga.

As férias, de Capelão Militar, duas vezes por ano, eram passadas em casa de meus pais "Arribas do Mar" [leia-se, Ribamar, da Lourinhã],- 

 Celebrava na minha terra e era muito solicitado pelas famílias da redondezas, para saberem notícias dos filhos. Não tinha tempo para ir visitar a instituição [ OFM - Ordem dos Frades Menores em Portugal, também conhecida como Província Portuguesa da Ordem Franciscana].

Aliás, com o meu dinheiro, custeava as despesas dos estudos de minha irmã [mais nova, a maois velha era enfermeira],  frequentava já o Instituto Comercial e consegui, com as economias, liquidar as restantes dívidas de meu pai. 

Vivia, portanto, praticamente à margem da minha instituição. Ainda cheguei a escrever algumas cartas, mas nunca obtive resposta. 

Talvez, por isso, quando acabou a tropa, escrevi aos Superiores a dizer que não estava disposto a voltar imediatamente para o Convento. Responderam-me, acenando-me com um lugar de Superior, numa residência da instituição, recusei e sem saber para onde ir, pedi para ficar mais um ano no serviço militar.

Como me disseram que não havia lugar, fiquei bastante ofendido, pois sabia que outros conseguiram ficar. Frustrada uma ida para Angola, para dar aulas no Liceu de Nova Lisboa [,hoje, Huambo], oferecí-me ao Clube Stella Maris para ir para Capelão do Mar, a ver como as coisas evoluíam, depois achava que não era capaz de voltar para a instituição.

Tinha de tomar uma decisão, mas era muito penoso. A pressão social da minha família e das gentes que em mim tinham confiado continuava a ser um grande obstáculo, cada vez mais difícil de transpor. Preferi, pois, adiar mais algum tempo. Nascia também em mim o Tânsfuga.

O Apostolado da Mar, organização católica que fornecia capelães para os navios da Marinha Mercante, foi a solução provisória encontrada. Ganhava, assim, mais algum tempo, fora da jurisdição da instituição, podia continuar a ajudar a família e entretanto tinha tempo para ponderar melhor a sua decisão.

- 133 - 

Este adiamento nada resolveu. A decisão tinha de ser minha. O clima relacional nos navios da Marinha Mercante, fretados ao exército para transporte de tropas, era duplamente penalizador.  

Após as emoções da partida, os soldados iam, como animais para o matadouro, em camaratas improvisadas nos porões. Alguns enjoavam e outros bebiam demais e nem para as refeições se levantavam. Revoltados, vingavam-se nos colchões de espuma que, no fim da viagem, eram mandados ao mar. 

Por sua vez,  a tripulação do navio, sob a jurisdição do comando militar, vivia num contínuo stress. A tripulação era constituída na sua grande maioria por jovens oficiais, a cumprir deste modo o serviço militar. Afogavam, pois, em garrafas de uísque a sua desdita.

Nos navios petroleiros a situação não era melhor: passavam cerca de 25 dias a sonhar com o porto de Lisboa ou Leixões, mas aí chegados, passadas 48 horas, o navio zarpava novamente.

Eu percorria, durante o dia, todo o navio, quando o mar era calmo, mas só era solicitado para ouvir desabafos. Por isso, sentia-me inútil como padre,  não obstante todos me tratarem com correcção. Sentia-me como uma ave rara, com quem todos, levados pela curiosidade, queriam discutir assuntos de religião. Tirava algumas dúvidas, mas não resolvia as minhas.

Entretanto, ia-me preparando para o exame de admissão à Faculdade de Letras. Esta admissão constava da matéria de História do 5° ao 7° ano e Filosofia do 6º e 7°.

Nas últimas viagens ao Golfo Pérsico, estava mesmo disposto a mudar de profissão, pedindo a redução ao estado laical. O isolamento de cerca de 25 dias de viagens, só com 30 a 40 homens a bordo, tentando esquecer o tempo, bebendo, ou criando situações conflituais, desenraizados socialmente, trouxe-me a noção do meu próprio isolamento. Nada me faltava a bordo. Contudo, achava inútil a minha presença ali.

Na minha indecisão ía-os ouvindpo,  mas também desabafando os meus problemas. 

- 134 - 

Esta situação não lhes passou despercebido e, na hora do desembarque, ofereceram-me um saco confecionado a bordo e uma caneta, num estojo, onde se lia: «para o capelão. Prenda de casamento».

Nesta indecisão, bem dolorosa para mim e toda a minha família, novamente, uma pessoa teve grande influência: o padre da minha freguesia, um belga,  assistente da Universidade de Lovaina em Físico-Químicas, que veio, já vocação tardia, para o Patriarcado  [de Lisboa] Roger Carpentier, já falecido].

Ousadamente, tentou sacudir a religiosidade tradicional do povo da freguesia, preocupando-se, sobretudo, em reconciliar as muitas famílias desavindas, o que para ele era essencial. Deixou de celebrar missa semanal na igeja paroquial, preferindo antes as casas das pessoas. Aí reunia toda a família, e outros que quisessem participar. No meio da refeição normal, constituída por aquilo que cada um levava, lia alguns extratos do Evangelho apropriados. Consagrava, depois, o pão e o vinho e dava a comunhão que era o momento alto da reconciliação das pessoas, umas com as outras, porque, dizia, ninguém pode estar de bem com Deus, sem estar de bem com os outros.

Nos dias de semana trabalhava como camarada de um barco e recebia o seu quinhão de peixe. Disso vivia e das aulas no Instituto dos Invisuais em Lisboa, sem levar dinheiro pelos outros serviços, prestados aos fregueses. 

Toda a gente o estimava e admirava peia sua dedicação e desprendimento que contrastava com a normalidade. Foi incompreendido pelas hierarquias do Patriarcado, acabando por sair e casar com uma professora cega, com mais três irmãos cegos que continuou a amparar.

Foi ele que me orientou. Ia para sua casa e falávamos, demoradamente. Os seus conselhos e a sua corajosa atitude ajudaram a libertar-me da indecisão.

Depois de mais uma vez regressar à Guiné, com tropas [no T/T «Niassa»], ,fiz a última viagem a Cabinda . Desembarquei e fui hospedar-me, como de costume, numa residência da instituição. Pedi a redução ao estado laical e fiquei a aguardar. 

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Embora continuasse a celebrar, recebia a visita de minha irmã, então a trabalhar no Porto e de outras raparigas, entre elas a minha futura mulher.

Esta situação deve ter chegado aos ouvidos dos Superiores Maiores, que se ofereceram para me pagar determinada quantia mensal, para alugar um quarto na cidade, se eu abandonasse, de vez, a residência.

Mal abandonei a residência, esqueceram-se da promessa e fui morar com mais três colegas, num quarto alugado. Para sobreviver, dava explicações e oito horas semanais de aulas. Em contrapartida, leguei aos meus ex-confrades as alfaias litúrgicas do Apostolado do Mar e à Igreja de Arribas do Mar, os cálices que me tinham oferecido na Missa Nova.

Casei na capela românica da Cedofeita, com a assistência apenas dos padrinhos, tal como me impôs o Bispo do Porto, em 1972. Tudo em conformidade com o 'habitus' da obediência e subordinação. A paixão é que foi transferida do simbólico para o real

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Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 133-136 (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).

(Continua)

(Revisão/ fixação de texto, negritos, links, parênteses retos, título: LG)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 18 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27748: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte IX: No BART 1913 (Catió, 1967/69): E "aos costumes disse nada", porque fora educado... na conformação

Restantes postes da série:

3 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27598: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte I: Arribas do Mar (Ribamar, Lourinhã), a família (o pai, a mãe, o avô materno)

5 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27607: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte II: A escola primária e a comunhão solene

8 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 . P27617: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte III: O nº 27, do Colégio Seráfico

17 de janeiro de 2026 Guiné 61/74 - P27642: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte IV: Vigiar e punir

20 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27651: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte V: O noviço

27 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27676: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VI: Corista de filosofia e teologia e depois padre

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27748: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte IX: No BART 1913 (Catió, 1967/69): E "aos costumes disse nada", porque fora educado... na conformação


Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (1967/69) > Vila > Álbum fotográfico do Victor Condeço > Foto 4 -  Igreja Paroquial de N. S.ª de Catió.


Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (1967/69) > Vila > Álbum fotográfico do Victor Condeço >Foto 19 >Escola primária oficial na avenida, foto tirada da torre da Igreja.



Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (1967/69) > Álbum fotográfico do Victor Condeço > Catió > Quartel > Foto nº 16 > "Lavadeiras à porta da camarata de sargentos, do lado direito vê-se parte do bar de sargentos".


Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS do BART 1913 (Catió 1967/69) > Cerimónia militar em Fevereiro de 1968, por ocasião da imposição à CART 1689 da Flâmula de Honra (ouro) do CTIG (Comando Terriorial Independente da Guiné), atribuída em julho de 1967, com a presença das entidades civis e população.

Foto 32  do álbum fotográfico do Victor Condeço (1943-2010) > "Militares, civis da administração, correios e comerciantes. Da esquerda para a direita, [?], de costas o Cap Médico Morais (1), o comandante, ten cor Abílio Santiago Cardoso (2), quatro funcionários dos Correios e Administração (3), os comerciantes Srs. José Saad e filha (4), Mota (6), Dantas e filha (5), Barros (7), depois o electricista civil Jerónimo (8), e o alf graduado capelão Horácio  Fernandes (9)".

"Ao canto superior direito pode ler-se a seguinte inscrição: 'A nossa intervenção em África é resposta a um desafio que nos lançaram e a afrontas que não podemos esquecer' ". (E a propósito, de quem seria o autor da frase ?)

Fotos (e legendas): © Victor Condeço (2007).  Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Capa do livro do Horácio Fernandes, publicado 14 anos depois da sua dissertação de mestrado (1995): ""Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.)


1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do  nosso grão -tabanqueiro Horácio Fernandes, que foi nosso camarada como capelão militar no CTIG ( 1967/69), e que faleceu recentemente, em novembro de 2025, com 90 anos completos. 
 
No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta a história de vida de Francisco Caboz, seu "alter ego". Trata-se, pois, de uma autobiografia, que em 30 páginas, a duas colunas, cobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta até 1972, o ano em que, prestes a fazer 37 anos, regressa ao estado laical e constitui família.

Nos oito postes anteriores já publicados (*), ele fala-nos, sucintamente, de:

(i) a sua terra natal, "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram: o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e o avô materno (nascido por volta de 1875/80, o sacristão da freguesia, o Ti João das Velas de Santa Bárbara);

(ii) como foi criando raízes a ideia de ser padre: o avô materno, sacristão, e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram nessa decisão;

(iii) a entrada no Colégio Angélico (leia-se, Seráfico, na altura Montariol, em Braga, a mais de 300 km de distância da sua terra, Ribamar, Lourinhã), e os "quatro cenários" onde se vai desenrolar a sua vida de "angélico" (ou seja, até ao 5º ano, correspondente hoje ao 9º ano de escolaridade): a camarata, o refeitório, a sala de aulas, o salão de estudo, e onde vigorava o panoptismo;

(iv) os mecanismos de vigilância dos internos e os rituais de punição por parte dos prefeitos;

(v) o 6.º ano, quando passa a ser noviço (Convento do Varatojo, Torres Vedras);

(vi) segue-se o Coristado de Filosofia (em Leiria, no seminário de São Francisco / convento da Portela) e depois de Teologia (no Seminário da Luz, Carnide, Lisboa), até à ordenação sacerdotal (em agosto de  1959).

(vii) em no início do 2º semester de 1967, é chamada para fazer, na Academia Militar, o 1º curso de capelães militares;

(viii) é mobilizado  para a Guiné, em rendição  individual, como capelão militar, sendo colocado em Catió no BART 1913.


Horácio Fernandes (1935.2025)
Terminada a comissão, em finais de 1967, andou ainda na marinha mercante (transporte de tropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972, antes de completar os 37 anos.

Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006, aos 70 anos, doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha.

Reencontrámo-nos,  por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro, Lourinhã, ao fim de 57 anos de vidas completamente separadas.


2. É uma história de vida que merece ser 
conhecida dos nossos leitores. Um verdadeiro 
testemunho de uma época que ainda coincide, 
em parte, com a nossa.

É um trabalho académico, relevante não só para a história da capelania castrense como também para o conhecimento do ensino confessional ministrado em seminários diocesanos e regulares, onde se formava o clero católico ao tempo da Ditadura Militar e Estado Novo (1926-1974).


História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte IX:  No BART 1913 (Catió, 1967/69): E "aos costumes disse nada", porque fora educado... na conformação

por Horácio Fernandes


Este incidente [a praxe a que foi sujeito à chegada, em Catió, com exibição de fotos pornográficas](  (*) estragou a recepção planeada, embora o comandante que presidia [à refeição, na messe de oficiais] tentasse mnimizá-lo. 

O capitão levantou-se da mesa, todo ofendido, e foi preciso o patrocínio do médico, para sanar o contencioso aberto. Só passados vários meses me voltou a falar.

Como único padre da vila, fui encarregado da missão católica que os missionários italianos tinham abandonado e das 4 escolas, a cargo dos respectivos professores indígenas.

Aos domingos organizava a catequese e celebrava missa para a tropa e população. Contudo, nunca fui bem recebido pelos professores, talvez por ser militar. Não obstante os meus esforços de aproximação, continuavam mudos e calados, mas a sua raiva contra o colonialismo era evidente. Respeitava este silêncio, porque sabia que tinham familiares a combater do outro lado e eram frequentemante incomodados pela PIDE.

Aos domingos o comandante do batalhão estava sempre muito atento à homilia, mas eu nunca abordava as questões políticas, nem tinha apetência para elas, porque tinha sido educado na conformação Continuava a falar, indistintamente, para brancos e pretos, como Filhos de Deus, indiferente aos problemas politicossociais, tal como na Metrópole.

O quotidiano era feito de vigilâncias à mata, mas com poucos contactos e abastecimento às companhias e pelotões destacados no mato. Quando havia mortos ou feridos, eram logo evacuados de helicóptero para Bissau. 

À medida que a comissão estava a findar e já todos contavam ansiosamente os dias que faltavam. Éramos atacados, duas ou três vezes por semana, com morteiros e canhões sem recuo, geralmente à hora do jantar. Os abrigos eram o meu refúgio e o do médico.

Quase no fim do tempo de comissão, durante um ataque ao quartel, uma granada de morteiro furou a chapa de zinco do barracão e caiu em cima de uma mesa da messe de oficiais, onde também me encontrava. Só por milagre não rebentou: Desencavilharam-na, e ficou como recordação para os que nos renderam, numa redoma de vidro.

Na sede do Batalhão, a minha missão era, para além de prestar assistência religiosa à população e soldados da CCS, deslocar-me, quando tinha avião, barco, ou mais raramente em colunas, às outras Companhias 
[de quadrícula]que defendiam o perímetro militar, à responsabilidade dó Batalhão (**).

Desafiaam-me para ir com as colunas militares, mas nunca arrisquei muito. Em caso de ataque só atrapalhava e,  além disso,  tinha medo das minas.

Nos destacamentos do mato, a minha missão era prestar assistência religiosa aos que a solicitavam. Era muito solicitado por soldados provenientes dos Açores e Madeira e oriundos do norte do país. 

Nunca andava armado e praticamente não sabia dar um tiro. 

Uma das coisas que me fazia mais confusão, era, para além da «compra» das raparigas por soldados e oficiais, a pretexto de lhes lavar a roupa, o modo como o agente da PIDE tratava os suspeitos. Pendurava-os pelas mãos ao teto, com uma corda, como se fossem porcos e mandava um «cipaio», geralmente de outra etnia, dar-lhe porrada, até ele confessar o que queria ouvir.

- 131 -

Casualmente, assisti uma vez a este espectáculo. Mostrei o meu desagrado e não voltei lá mais. 

Mas o mesmo fazaiam as companhias o operacionais, a alguns suspeitos. A única vez que me integrei numa missão de vigilância, por insistência do capitão, apanharam um homenzinho e enfiaram-lhe a cabeça na água choca da «bolanha», para ele confessar quem tinha dado uns tiros de aviso, antes da nossa chegada. 

Protestei, mas continuaram e,  meio morto, trouxeram -no para o quartel. Afinal, disse-me mais tarde o capitão, ele de nada sabia. Aproveitaram-no, depois, para guia.

Igualmente me metia con confusão como os pretos e suas mulheres eram explorados pela "Companhia Ultramarina" [Sociedade Comercial Ultramarina, do grupo BNU, rival da Casa Gouveia] . Vinham carregados do mato, com balaios de arroz à cabeça c pagavam-lhes com alguns garrafões de aguardente de cana. 

Ficavam ali num alpendre da Companhia, perdidos de bêbados, homens,  mulheres e crianças, até esgotarem a aguardente. Depois da ressaca, voltavam às tabancas buscar mais arroz e repetia-se a cena.

- 132 -

(Continua)

(Seleção, revisão / fixação de texto, parênteses retos, bold, itálicos, título: LG)

1. Ficha de unidade > Batalhão de Artilharia n.º 1913

Identificação: BArt 1913
Unidade Mob: RAP 2 - Vila Nova de Gaia
Cmdt: TCor Art Abílio Santiago Cardoso
2.° Cmdt: Maj Art Luís Teixeira Fernandes
OInfOp/Adj: Cap Art Ernesto Chaves Alves de Sousa | Cap Art Luís Alfino Castel-Branco Alves de Silva

Cmdts Comp:
CCS: Cap SGE Rodrigo Botelho da Costa ,
CArt 1687: Cap Mil Art Vicente João Cardoso de Macedo de Menezes
CArt 1688: Cap Art Damasceno Maurício Loureiro Borges
CArt 1689: Cap Art Manuel de Azevedo Moreira Maia | Cap Inf Martinho de Sousa Pereira | Cap Art Rui Manuel Viana de Andrade Cardoso
Divisa: "Por Portugal - um por todos, todos por um"

Partida: Embarque em 26Abr67; desembarque em 01Mai67 | Regresso: Embarque em 02Mar69

Síntese da Actividade Operacional

Em 02Mai67, rendendo o BCaç 1858, assumiu a responsabilidade do Sector S3, com sede em Catió e abrangendo os subsectores de Bedanda, Cufar, Catió, Cachil, este extinto em l8Ju168, após evacuação e Cabedú, também extinto em 30Jul68 e integrado no subsector de Catió.

Desenvolveu intensa actividade operacional em ordem a criar insegurança ao inimigo no sector, garantir a circulação nos itinerários e promover a recuperação e protecção das populações da área. 

Pelos resultados obtidos e pelos efectivos envolvidos, salientam-se as operações "Penetrante", "Sttela", "Pleno" e "Futuro Próximo" entre outras.

Dentre o material capturado mais significativo salienta-se: 1 lança-granadas foguete, 2 pistolas-metralhadora, 4 espingardas, 34 minas, 117 granadas de armas pesadas e 605 cartuchos de armas ligeiras.

Em 17Fev69, foi rendido no sector de Catió pelo BArt 2865 e recolheu seguidamente a Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso.

***

A CArt 1687 permaneceu sempre integrada no dispositivo e manobra do seu batalhão, tendo assumido em 02Mai67 a responsabilidade do subsector de Cachil, onde rendeu a CCaç 1423.

Em 09Ju167, por troca com a CCaç 1621, assumiu a responsabilidade do subsector de Cufar, onde se manteve até ser rendida pela CArt 2477, em 18Fev69, após o que recolheu a Bissau a fim de efectuar o embarque de regresso.

***

A Cart 1688, após curta permanência em Bissau, onde substituíu transitoriamente a CCaç 1424 no dispositivo de segurança e protecção das instalações e das populações a cargo do BArt 1904, efectuou simultaneamente uma instrução de adaptação operacional, sob orientação do BCaç 1876, na região de Bula, para onde seguiu em 08Mai67. 

Seguidamente tomou parte em operações realizadas nas regiões de Ponate, Choquemone, Manga e Late, entre outras.

Em 31Mai67, iniciou o deslocamento para Biambe, por fracções e em 07Jun67, assumiu a responsabilidade do subsector de Biambe, com um pelotão destacado em Encheia, desde 04Jun67 até 150ut67, onde substituíu a CCav 1485, ficando integrada no dispositivo e manobra do BCaç 1876 e depois do BCav 1915.

Em 19Fev69, foi substituída no subsector de Biambe pela CCaç 2464 e recolheu seguidamente a Bissau, a fim de aguardar o embarque de regresso.

***

A CArt 1689 seguiu imediatamente para Fá Mandinga, a fim de efectuar o treino operacional, até 24Mai67 e seguidamente reforçar o dispositivo e manobra do BCaç 1888, colmatando anterior saída da CCaç 1439 e actuando em várias operações, patrulhamentos, emboscadas e escoltas realizadas naquele sector, até 18Ju167, tendo cedido, ainda, um pelotão para reforço da guarnição de Bambadinca.

Em 19Ju167, em substituição da CCav 1484, foi colocada em Catió, como força de intervenção e reserva do Comd Agr 1975 e depois do Cmd Agr 2951, a fim de actuar em diversas operações realizadas na zona Sul, nas regiões de Cobumba, Afiá, Nhai e Cabolol Balanta, entre outras, em reforço do BArt 1913 c na região de Gubia, em reforço do BArt 1914, de 25Nov67 a 23Dez67. 

Foi deslocada temporariamente para o subsector de Cabedú, de 05 a 11Jan68, a fim de substituir a CArt 1614, até à chegada da CCaç 1788.

De 24Mar68 a 15Mai68, foi atribuída em reforço do BArt 1896, instalando-se inicialmente em Buba e, a partir de 08Abr68, em Gandembel, em reforço da guarnição local e da construção do respectivo aquartelamento.

Em 10Jun68, por troca com a CCaç 1788, assumiu a responsabilidade do subsector de Cabedú, no sector do BArt 1896, onde permaneceu até à sua extinção em 30Ju168.

Deslocada seguidamente para Canquelifá, assumiu, em 06Ago68, a responsabilidade do respectivo subsector, com um pelotão destacado em Dunane, onde rendeu a CCaç 1623, ficando integrada no dispositivo e manobra do BCaç 2835.

Em 01Dez68, foi rendida no subsector de Canquelifá pela CArt 2439 e seguiu, em 05Dez68, para o sector de Bissau, a fim de substituir a CCaç 2436 no dispositivo de segurança e protecção das instalações e das populações da área, na dependência do BCaç 1911 e onde permaneceu até ao seu embarque de regresso.

Observações - Tem História da Unidade (Caixa nº  80 - 2ª Div/4ª  Sec, do AHM).

A CArt 1688 e 1689 tem História da Unidade (Caixa nº  82 - 2ª  Div/4ª  Sec,
do AHM).

A CArt 1687 tem Resumo de Factos e Feitos mais importantes (Caixa nº 103 - 2ª Div/4ª Sec. do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pp. 215.217.
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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27716: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VIII: Mobilização para o CTIG, no último trimestre de 1967, e a praxe... "pornográfica", em Catió


Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (1967/69) > Catió 

"Cerimónia militar em fevereiro de 1968, por ocasião da imposição à CART 1689 da Flâmula de Honra (ouro) do CTIG, atribuída em julho de 1967. Edifício do comando. Presença de militares, civis da administração, correios e comerciantes locais.

"Da esquerda para a direita, 

(A) um militar, de camuflado, que não consigo identificar; 

 (B) de costas, o cap médico Morais; 

 (C) o comandante, ten cor Abílio Santiago Cardoso; 

 (D) quatro funcionários dos Correios e da Administração; 

(E) o comerciante Sr. José Saad [libanês] e filha; 

(F) o comerciante, Sr. Mota; 

(G) o comerciante, Sr. Dantas e filha; 

(H) o comerciante, Sr. Barros; 

(I) o electricista civil, Jerónimo: 

(J) e, por fim, o alf  graduado capelão Horácio [Neto Fernandes]" [um capelão isolado, mais próximo dos civis do que dos militares, um padre que não está bem com Deus nem com César...].


 Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (1967/69) > Catió > Parada do quartel, ao fundo o edifício do comando. As NT em formatura.



Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (1967/69) > Catió > Parada do quartel, ao fundo o edifício do comando.  

Álbum fotográfico do Victor Condeço (1943/2010).

Fotos (e legendas): © Victor Condeço (2007).  Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Capa do livro do Horácio Fernandes, publicado 14 anos depois da sua dissertação de mestrado (1995): ""Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.)-.


1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do  nosso grão -tabanqueiro Horácio Fernandes, que foi nosso camarada como capelão militar no CTIG ( 1967/69), e que faleceu recentemente, em novembro de 2025, com 90 anos completos. 
 
No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta a história de vida de Francisco Caboz, seu "alter ego". Trata-se, pois, de uma autobiografia, que em 30 páginas, a duas colunas, cobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta até 1972, o ano em que, prestes a fazer 37 anos, regressa ao estado laical e constitui família.

Nos sete postes anteriores já publicados (*), ele fala-nos, sucintamente, de:

(i) a sua terra natal, "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram: o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e o avô materno (nascido por volta de 1875/80, o sacristão da freguesia, o Ti João das Velas de Santa Bárbara);

(ii) como foi criando raízes a ideia de ser padre: o avô materno, sacristão, e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram nessa decisão;

(iii) a entrada no Colégio Angélico (leia-se, Seráfico, na altura Montariol, em Braga, a mais de 300 km de distância da sua terra, Ribamar, Lourinhã), e os "quatro cenários" onde se vai desenrolar a sua vida de "angélico" (ou seja, até ao 5º ano, correspondente hoje ao 9º ano de escolaridade): a camarata, o refeitório, a sala de aulas, o salão de estudo, e onde vigorava o panoptismo;

(iv) os mecanismos de vigilância dos internos e os rituais de punição por parte dos prefeitos;

(v) o 6.º ano, quando passa a ser noviço (Convento do Varatojo, Torres Vedras);

(vi) segue-se o Coristado de Filosofia (em Leiria, no seminário de São Francisco / convento da Portela) e depois de Teologia (no Seminário da Luz, Carnide, Lisboa), até à ordenação sacerdotal (em agosto de  1959).

(vii) e,por fim,  em 1967, a sua mobilização  para a Guiné, como capelão militar. 


2. É uma história de vida que merece ser conhecida dos nossos leitores. Um verdadeiro testemunho de uma época que ainda coincide, em parte, com a nossa.

O Horácio nasceu em 1935. Em 1945/46, completou a 4.ª classe e seguiu para o seminário menor dos franciscanos (o colégio seráfico, a que ele chama angélico), em Montariol, Braga.

Até ser ordenado padre, passará por Varatojo / Torres Vedras, Leiria e Carnide / Lisboa, completando 13 anos de estudo e formação em regime de disciplina apertada.

O Horácio Fernandes seria ordenado padre, ainda antes de completar os 24 anos. Lembro-me de ter ido à sua Missa Nova, em 15 de agosto de 1959, na sua terra, Ribamar, Lourinhã.

É um trabalho académico, relevante não só para a história da capelania castrense como também para o conhecimento do ensino confessional ministrado em seminários diocesanos e regulares, onde se formava o clero católico ao tempo da Ditadura Militar e Estado Novo (1926-1974).

Foi depois alferes graduado capelão, em rendição individual, no BART 1913 (Catió, setembro de 1967 - maio de 1969) e no BCAÇ 2852 (Bambadinca, no 2.º semestre de 1969). Chegaria ao CTIG com 32 anos, regressaria com 34.

Andou ainda na marinha mercante (transporte de tropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972, antes de completar os 37 anos.

Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006, aos 70 anos, doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha.

Reencontrámo-nos,  por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro, Lourinhã, ao fim de 57 anos de vidas completamente separadas.


História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VIII:  Mobilização para o CTIG, no último trimestre de 1967, e a praxe... pornográfica

por Horácio Fernandes

Cenário 3. - Regresso ao antigo Colégio Angélico como Subprefeito de Disciplina e mobilização para Capelão Militar

Regressado ao antigo Colégio Angélico, por imposição dos Superiores, e sem qualquer explicação, mergulhei novamente no passado. 

Os alunos ainda faziam exames internos e ia ficar sob a jurisdição de alguns dos meus antigos professores e Prefeitos. Contudo, alguma coisa tinha mudado: faziam-se encontros de futebol com outros Seminários e davam-se passeios, sem o traje ritual, embora as normas disciplinares se conservassem as mesmas.

Talvez por isso e porque pouco podia alterar, como Subprefeito que era, dediquei-rne mais à direcção espiritual das freiras e à pregação. Comecei por alguns tríduos e acabei nos sermões de festa. O fundamental era conseguir a técnica, que variava, consoante o auditório. Escrevia todo o texto do sermão e arranjava algumas estórias piedosas para comover o público.

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A princípio, decorava todo o sermão, mas depois comecei a decorar apenas as linhas mestras. Para despertar o auditório, havia exclamações oratórias sonantes, nos momentos cruciais. Neste campo, como nos outros, fui autodidacta, aprendendo com a experiência e os erros.

Passados dois anos, em que já tinha uma clientela razoável, nas freguesias vizinhas, talvez devido à muita procura e escassez da oferta, fui mobilizado pata Capelão Militar, em substituição de um colega a quem tinha morrido a mãe.

Em Agosto de 1967, com 32 anos de idade,  fui convocado para submeter-me a um treino, de cerca de um mês, na Academia Militar, para exercer as funções de Capelão na Guerra Colonial.

Era um Bispo, com o posto de Brigadeiro que estava à frente da Capelania Militar. Nas aulas de Deontologia Mlitar realçava o papel do Capelão, como levando o conforto espiritual aos valentes soldados que lutavam contra os inimigos que pretendiam destruir a civilização cristã e o nosso esforço missionário.

 Contudo, nos dois anos de Capelão Militar, sempre verifiquei que os chefes da Capelania preferiam o conforto do Quartel General de Bissau, a visitar os capelães que estavam em zona de guerra.


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Cenário 4. - Capelão Militar na Guiné. A Guerra Colonial e as minhas guerras.

A mobilização para Capelão Militar significou um corte, quase radical, com as estruturas conventuais; A partir daí, o local de habitação era o quartel, indo aos fins de semana a casa, recebia e administrava o meu vencimento de aspirante e depois alferes graduado capelão. 

Na qualidade de capelão, estava sujeito à jurisdição da Capelania-Mor. Este desenraizamento da instituição, a quem me tinha umbilicalmente ligado, desde os 10 anos, abriu caminho a uma série de interrogações e relacionamentos, até aí impossíveis de conceber.

O treino teve componente teórica e prática. As lições práticas consistiam em exercícios físicos todos os dias e algumas lições de tiro, que nunca foram levadas a sério pelos instrutores, porque diziam que a nossa missão não era essa. Assim se passou um mês, até ao embarque.

Fiquei reprovado a Treino Físico, porque não podia dobrar bem a articulação do joelho esquerdo, mas fui aprovado como os outros.

A distribuição dos capelães pelos batalhões causou-me alguma confusão. Todos os meus colegas tinham grandes «cunhas» e vinham já destinados a batalhões da Marinha e Aviação, as armas mais apetecíveis. 


Mesmo os destinados ao Exército vinham bem recomendados pelos bispos das dioceses, ou padres amigos. Sem conhecer ninguém, senti-me só e desamparado e fui mandado para a Guiné para um Batalhão de Artilhari
a [BART 1913, Catió, 1967/69], que já ia em 8 meses de comissão de serviço.(**)

Embarquei, em setembro de 1967
 [esteve no CTIG, de 1/11/67 a 3/11/69],  no paquete «Uíge», com destino à Guiné, tendo à partida a dizer-me adeus apenas a minha família. 

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Os meus confrades tinham -se esquecido. Este esquecimento e o sistema das «cunhas» entre membros da Igreja, a que não estava habituado, fízeram-me reflectir um pouco. 

Contudo, o momento não era para grandes análises, nem estava habituado a elas, mas a obedecer.

Desde que fui mobilizado parecia um jovem gamo. Tudo era novidade. Parecia que estava a viver a minha adolescência, até aí submersa.

Coincidiu com as férias grandes e gostava de me fazer acompanhar pela gente nova da minha terra. Rapazes e raparigas estudantes eram uma presença permanente em minha casa, durante as três semanas de férias que antecederam a partida. 

Eu representava para meus pais, e restantes famílias de Arribas do Mar a segurança, face à tentativa, sobretudo das raparigas adolescentes, de sacudir a pressão dos familiares, considerados já antiquados. Por isso, organizava piqueniques, festas, idas ao cinema. Um acordeão que me tinham oferecido acompanhava-me para toda a parte, não obstante pouco saber tocar.

Desde que saíra do Seminário, vivia o quotidiano como uma aventura. A ida para a Guiné fazia parte dessa aventura de adolescente, onde não cabia a problemática política, nem os perigos que podia correr.

Ia contactar com a Africa dos meus sonhos de Angélico, em circunstâncias de guerra, de que não fazia a mínima ideia, mas estava acima de tudo curioso.

 Comprei as fardas, recebi os abonos adiantados que fizeram muito jeito aos meus pais e embarquei carregado de trintários (15) pelas almas do purgatório e de presentes para os soldados da freguesia e concelho.

Os 6 dias de viagem foram passados, agarrado a um potente rádio que tinha comprado, a ouvir notícias da Metrópole. Enjoava, e, por isso, sempre que podia, subia ao no convés, para conversar com os cabos e praças de outras companhias. 

Ainda meio atordoado, desembarquei em Bissau, partindo na primeira avioneta militar para o sul da Guiné.

A recepção nunca mais a esquecerei. Os oficiais estavam já à mesa, para o almoço. Deixei as malas no jipe que me foi buscar ao campo de aviação de terra batida e fui sentar-me, onde havia um lugar vazio. Reparei que,  antes da sopa, começou a correr, de mão em mão, um envelope de fotografias em ponto grande, mas não liguei importância. 

Era uma armadilha.

Daí a pouco, o capitão que estava a meu lado, passou-mas e,  ao abrir, verifiquei que continham mulheres nuas, algumas a fazer sexo nas posições mais esquisitas. 

O capitão ia passando-as, uma a uma, diante de mim, concerteza para ver a minha reacção. Eu fiquei muito embaraçado e,  sem o fair play necessário nestes momentos, perguntei-lhe:

- É a sua mulher?
_________________

Nota do autor LG:

(15) Conjunto de trinta missas seguidas com que os familiares costumavam sufragar as almas dos defuntos, por vezes por imposição testamentária.

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Este incidente estragou a recepção planeada, embora o comandante que presidia tentasse mnimizá-lo. O capitão levantou-se da mesa, todo ofendido,  e foi preciso o patrocínio do médico, para sanar o contencioso aberto. 

Só passados vários meses me voltou a falar.

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(Continua)

(Revisão/ fixação de texto, negritos, links, parênteses retos: LG)
 ____________________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 2 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27695 : História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VII: Ordenação, Missa Nova, professor de externato, capelão de freiras e servidor de famílias ricas na Comporta aos domingos
 
Últimos postes da série: 
 




(**) História da unidade: Batalhão de Artilharia nº 1913

Identificação:  BArt 1913
Unidade Mob: RAP 2 - Vila Nova de Gaia

Cmdt: TCor Art Abílio Santiago Cardoso | 2.° Crndt: Maj Art Luís Teixeira Fernandes 
OInfOp/Adj: Cap Art Ernesto Chaves Alves de Sousa | Cap Art Luís Alfino Castel-Branco Alves de Silva

Cmdts Cornp:

CCS: Cap SGE Rodrigo Botelho da Costa 

CArt 1687: Cap Mil Art Vicente João Cardoso de Macedo de Menezes

CArt 1688: Cap Art Damasceno Maurício Loureiro Borges

CArt 1689: Cap Art Manuel de Azevedo Moreira Maia | Cap Inf Martinho de Sousa Pereira | Cap Art Rui Manuel Viana de Andrade Cardoso

Divisa: "Por Portugal - um por todos, todos por um"

Partida: Embarque em 26Abr67; desembarque em 01Mai67 | Regresso: Embarque em 02Mar69

Síntese da Atividade Operacional:

Em 02Mai67, rendendo o BCaç 1858, assumiu a responsabilidade do Sector
S3, com sede em Catió e abrangendo os subsectores de Bedanda, Cufar, Catió,
Cachil, este extinto em l8Ju168, após evacuação,  e Cabedú, também extinto em
30Jul68 e integrado no subsector de Catió.

Desenvolveu intensa actividade operacional em ordem a criar insegurança
ao inimigo no sector, garantir a circulação nos itinerários e promover a
recuperação e protecção das populações da área. 

Pelos resultados obtidos e pelos efectivos envolvidos, salientam-se as operações "Penetrante", "Sttela", "Pleno" e "Futuro Próximo" entre outras.

Dentre o material capturado mais significativo salienta-se: 1 lança-granadas
foguete, 2 pistolas-metralhadora, 4 espingardas, 34 minas, 117 granadas de
armas pesadas e 605 cartuchos de armas ligeiras.

Em 17Fev69, foi rendido no sector de Catió pelo BArt 2865 e recolheu
seguidamente a Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso. (...)

(...) Tem História da Unidade (Caixa nº 80 - 2ª Div/ 4ª Sec, do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002,  pp. 215 e 217